Nós, os Fantaxmas, os animais translúcidos da resistência, espalhamos nosso uivo de ventania cidade adentro, cidade afora – a poesia que se evapora e alucina, que cura o barro e o sopro e que marca a nossa posição no tempo.
Caxias, 2016 – Um grupo de artistas inquietos e insurretos – alguns com muita, alguns com alguma, outros com quase nenhuma experiência no ofício de ser muitos – se unem em um coletivo, como mariposas em torno da luz: surgia a Academia Fantaxma.
Os fantaxmas são espíritos livres, os fantaxmas são aparições que burlam a ordem natural e fazem seus pequenos milagres-travessuras tenebro-luminosos nos corpos, nas memórias, nas frestas das paredes e nos buracos de chave.
Os fantaxmas são marginais de muitas formas – eles inventam margens onde só havia curral: trânsfugas e transumantes, ladras e ladrões de alma, Arlequins e Arlequinas, Colombinas e Pierrôs – poetas de rosto derretido sob a maquiagem reluzente.
Os fantaxmas são sonhos e pesadelos encarnados (descarnados) – reencarnações do verso. Os fantaxmas dizem e no dizer se inventam e tomam conta das ruas faladas, pisadas, transadas, narradas: eles povoam os interstícios dos tijolos dos muros cinzas e das horas mortas.
Os fantaxmas tocam o sino que não balançam nessas igrejas coloniais.
2019 – No Jardim de Ossos, que é o Morro do Alecrim – ah, se fossem cravos, quase que eram jasmins – os Fantaxmas se reúnem para badalar nos gorgomilos as palavras alquímicas que fundiram no calor da alma.
Corpos que são Templos, que são chamas, que são diapasões – vibrações de peitos e goelas e olhos e música chamando o vento, dançando com os pés-de-pau – amor-amizade, lovesofia, quem sabe jazz. Tantos e tantos malditos invocados a engrossar o coro dos desafinados… Alegria de Caetano, uma hora de palestra com aquele deus de Gilberto – e o perfume nos umbrais da brisa, a página solta da noite veloz.
Éramos nós. Nós, os Fantaxmas, os animais translúcidos da resistência, espalhamos nosso uivo de ventania cidade adentro, cidade afora – a poesia que se evapora e alucina, que cura o barro e o sopro e que marca a nossa posição no tempo.
Éramos nós. Nós, os cartunistas das cavernas, os sacerdotes sem doutrina, as prostitutas rituais – nós os expurgos da ciência, os espúrios da República, os cantores da Lua Vermelha, os namorados e namoradas de Ana.
Nós e nossos papiros, os nossos poemas, os nossos delírios – os nossos idiomas virgens pululando na língua da ponta da lança.
Fora do Tempo – Um Expanto.