Há um único sentido em que eu posso ser considerado marginal — exclusivo, específico e restritivo. Sou um homem inteligente e numa sociedade naturalmente burra, sistematicamente emburrecedora e tecnicamente dedicada à produção da burrice, toda inteligência é margem. Meu autoelogio sequer pode ser considerado arrogância — na terra dos sapos, pra ser homem, basta mijar em pé.

De resto, sou um bostinha até bem posicionado no tabuleiro burguês. Dinheiro, não tenho (lembrem-se, eu disse que sou inteligente, não ladrão). Mas sou um filho bastardo de mãe solteira, neto de avó professora pré-Fundeb, que teve a primeira infância no tempo do Plano Bresser. Chorei sentindo falta de margarina no cuscuz. Minhas ambições, foram massacradas no Jardim de Infância — eu evitava a humilhação de não ter os brinquedos da Estrela que apareciam nos intervalos do Show da Xuxa, simplesmente, recusando o desejo de os ter. Em troca delas — das minhas ambições asfixiadas — ganhei o delírio de uma mente inquieta e o folclore quebradiço que se aprende nas cidades, os quais converto em poesia, que é meu único capital.
E de poesia fui me fazendo. Péssimo estudante, tirava as melhores notas porque escrevia bonito. E nas provas de cálculo, contava com a simpatia dos professores, que achavam que eu merecia sempre uma nova chance, já que escrevia bonito. Na graduação, indisciplinado: o conhecimento mais consequente que adquiri foi como me embebedar um dia inteiro com dois reais em 2006. Incapaz de fazer uma pesquisa descente, passei raspando na monografia… Sim! Porque escrever bem é uma habilidade rara entre historiadores no Brasil. No Mestrado me dei melhor, porque uma boa dissertação é 95% poesia e o resto é citação direta de quem seu orientador mandar.
Assim, que hoje faço doutorado em universidade Federal , já fui publicado uma pá de vezes, ganhei homenagens em saraus, fui citado na tribuna do Senado Federal e da Câmara de Deputados e ocupo a cadeira m⁰ 39 de uma Academia de Letras paroquial. Tá, que moro numa casa alugada por oitocentos contos com paredes rebocadas de barro caiado, mas tem cerâmica branca no chão e fica a dez cá-eme da praia. Não tenho emprego de professor em Universidade pública, mas consigo sobreviver da escrita e da malandragem, passando raiva e vontades, mas não necessidade ou fome e ainda uso um perfume maneiro.
Também sou prova de que os ressentidos estão errados: eles é que são feios e falam merda, mas as mulheres são muito mais atraídas por violão e poesia do que por chave de carro e etiqueta de roupa. Não sou O Dom Juan de Johnny Depp, que teve duas mil mulheres antes dos vinte e dois, mas nos meus quarenta já comprovei isso umas duzentas e trinta vezes, o que é uma boa amostragem quando você é pobre, caolho,, tem cicatrizes de espinha e não chega a um e setenta e quatro.
O lance, penso eu, é que em todos os abismos em que cai, nunca foi por escorrego. Saltei naqueles que me olharam com malícia, mas só quando eu sabia que aguentava o baque no fundo — e que dava pra voltar. Eu escolhi bem as minhas derrotas e procurei evitar fraturas no corpo — daquelas da alma, a gente faz canção. Ainda tenho todos os dentes na boca e a cabeça cheia de cabelo, e se não sai ileso da pior das minhas crises, pelo menos eu sai inteiro, vivo, colorido e me mexendo. Eu já amaldiçoei a música tantas vezes e tantas vezes esculachei a poesia que sei que elas só seguem comigo porque me amam de verdade e talvez tenham planos pra mim. Me ensinar a morrer, quiçá. Ao contrário do que insiste a mitologia do Ocidente Cristão, a morte não é a porta de entrada, mas a saída do Inferno.
Hoje , eu acordei às três da manhã. Tão sonolento quanto insone. Não sei se me masturbei ou se li um livro. São duas formas de autocuidado e de prazer solitário, quase silencioso, que praticamente se equivalem e as duas únicas coisas que pratico com disciplina (ainda que disciplina de um jogador peladeiro). Tenho um cômodo na casa só pra abrigar meus livros e instrumentos. Um pequeno casulo, um cenotáfio, minha oficina do diabo, a imagem do meu vazio e da minha hipocrisia, a minha ambição cultivada. De certa maneira, esse estúdio doméstico onde deposito papel e máquinas de escrever e tocar é a confirmação do que eu disse no começo. Sou um bostinha até bem posicionado no tabuleiro burguês, mas numa terra de imbecis, eu sou um marginal, porque me recuso a emburrecer. Quando olhei pela persiana, o terraço tinha virado sol.
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